Conversava com uma colega de trabalho há alguns dias que compartilhou uma situação na empresa que prestava serviços educacionais (vulgarmente chamado de "dar aulas"). O diálogo foi mais ou menos assim:
- A Escola na qual trabalho está completando hoje seu terceiro mês de salário atrasado.
- Como assim?! - Disse eu espantado - Três meses em atraso?!
- Pois é! - Respondeu ela meio frustrada.
- E porque você não cai fora?! Você não trabalha em 4 empresas de educação?
- É, eu tentei sair, mas aí eu penso nos alunos que não tem nada haver com a situação, e em como eles serão prejudicados com a minha ausência e... prefiro ir e fazer a minha parte.
A conversa se desenrolou por vários minutos. Quando terminou o meu horário, 4 tempos de aula depois, aquele diálogo estava ainda "entalado na minha garganta". Na minha cabeça não fazia nenhum sentido a postura profissional que a minha colega tomara e depois de compartilhar a situação com outros colegas do ramo, descobri que muitos eram adeptos da tal prática. Ou seja, "darei minhas aulas", mesmo que a Empresa não cumpra com suas obrigações trabalhistas, afinal se há alunos interessados, aí está o meu prazer, minha satisfação, a minha realização profissional.
Essa postura profissional deixou-me atônito! Nunca conheci uma categoria profissional que tomasse para si com tanta messianidade a ideia de "o Brasil depende de mim", ou "somos os preparadores do futuro", ou ainda, "quem vai cuidar deles"? Sou totalmente adepto do trabalho voluntário, das boas ações, da justiça social, da caridade, mas não em tempo integral.
O professor é um profissional! Ou seja alguém que exerce uma ocupação como meio de vida ou para ganhar dinheiro, não o redentor do mundo, o bode expiatório da humanidade. Até porque é muita pretensão da nossa categoria profissional querer reivindicar para si o monopólio da utilidade social. Todas as profissões são formadoras e construtoras das relações sociais, TODAS. E não falo de profissões ditas nobres como médicos, advogados, engenheiros etc. Falo das consideradas ínfimas pela sociedade, como os profissionais da limpeza urbana, os profissionais dos alimentos cotidianos (pão, lanches, bebidas) entre outros.
É importante que nos portemos de maneira mais profissional. Conhecendo os nossos direitos constitucionais, cobrando os órgãos de representação da categoria, exigindo condições sérias para o exercícios da profissão. É importante também desconstruir a imagem do professor miserável, mau pago, o coitado que dá aulas para sobreviver (imortalizado nas palavras do "professor" Raimundo: e o salário ó...).
Neste blog, desejo compartilhar com colegas da mesma categoria profissional situações, experiências, anseios. Não farei deste espaço um desabafo de um profissional frustrado, de alguém desesperado pelos descaminho da educação do Brasil, apavorado com a atual condição da Escola Pública etc. Sinceramente, me encontro bem distante desta condição! Não estou alhienado das condições da Educação brasileira, entretanto busco outro foco para se discutir Educação, pela ótica da profissão, do profissional.
Profisional da educação, sim! Fornecedor livre de conhecimento, não!
